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23/06/2004 21:26
ainda naum dá pra comentar no meu novo blog... mas já é alguma coisa
n-a-d-a.blogspot.com
enviada por Sol
14/06/2004 15:48
enviada por Sol
08/06/2004 19:39

Depois de vender sua alma a um dos grandes demônios, Safienah Pollmos acordou do coma sem lembrar-se de nada do que acontecera na sua vida desde o dia em que O conheceu. Esquecera Seu nome, Seu rosto, Sua razão no mundo... Mas não o Seu significado! Algo inexplicável na respiração dela ainda guardava aquela sensação do despertar, muito maior que esse mero abrir os olhos depois do longo sono no hospital, e era como se Safienah jamais pudesse voltar ao que era antes. Mas "o que" era o antes? Ela não sabia. Em sua memória apenas ecoavam cenas fragmentadas. Palavras soltas; diálogos absurdos, estranhos, desconexos e saídos de algum sonho antigo demais para se sentir a sua verdade.
(Safienah) – EU JÁ SEI QUEM VOCÊ É , SÓ QUERO SABER SEU NOME.
(Ele) - QUE IMPORTA UM NOME? A ROSA NÃO TERIA O MESMO PERFUME SE OUTRO NOME LHE DESSEM?
(Safienah) - NÃO SABIA QUE OS ANJOS LÊEM SHAKESPEARE...
(Ele) - PARA FALAR COM HUMANOS DÊ EXEMPLOS HUMANOS... E EU NÃO SOU ANJO, LEMBRA-SE?
(Safienah) - É UM ANJO CAÍDO, NÃO É? É UMA DAS DENOMINAÇÕES QUE VOCÊS DEMÔNIOS TÊM, DISSO EU SEI.
(Ele) - VOCÊ TEM MEIA RAZÃO...
(Safienah) - GOSTO DE PENSAR QUE UM DIA VOCÊ JÁ FOI ANJO...
(Ele) - ALGUNS DE NÓS REALMENTE FORAM ANJOS.. MAS SÃO POUCOS! A MAIORIA, COMO EU, SÃO HUMANOS ELEVADOS...
(Safienah) - ELEVADOS?
(Ele) ( risinho sarcástico) - ORA, NA NOSSA ESCALA VOCÊS HUMANOS SÃO MUITO INFERIORES. CLARO QUE ESSA HISTÓRIA DE ANJOS CAÍDOS TEM A VER COM A FÁBULA HUMANA DE QUE ANJOS VIVEM NO QUE CHAMAM DE CÉU E DEMÔNIOS EM PROFUNDIDADES QUE VOCÊS CHAMAM DE INFERNO. MAS LEMBRE-SE SEMPRE QUE NOSSA ESCALA E REALIDADE SÃO OUTRAS!
(Safienah) - VOCÊ E SUAS FILOSOFIAS COMPLICADAS! COMO SE , NO FUNDO, NÃO FOSSE TUDO A MESMA COISA!
Tudo a mesma coisa? Que tudo ? Que coisa? Anjos, demônios? Ah, talvez Safienah acreditasse que o esquecimento é a única salvação. Ou só descresse mesmo, como sempre afirmara tão displicentemente, dando de ombros, a todos os outros. Uma cética, tantos céticos! Por que não mais uma? Certo, ninguém é apenas mais um... só os outros é que são.
Acordada, naquele lugar tão claro e enfumaçado como as representações oníricas dos filmes, a branca, branquíssima Safienah procurava algo físico a que se agarrar, já que o próprio controle sobre seus pensamentos parecia perdido. Era impossível separar as lembranças e o presente real de invenções criativas da memória, como quando se bebe demais.
>>>>>>>>> >>>>>>>>>> >>>>>>>>>> >>>>>>>>>> >>>>>>>>> --- LEGIO 4 ---
enviada por Sol
25/05/2004 22:07
E se eu te convencesse a se jogar?
Sentir a maldade pulsando nos meus poucos pensamentos. Eu ontem matei um cão e aprendi que, na verdade, era bom para mim - eu e somente eu.
Sei apenas que sigo um desejo que me foi concedido pelo simples fato de desejar.
Um inseto tem mais valor do que todas as palavras, sentimentos, dúvidas e certezas que eu tentasse tirar daqui e , no entanto, a repulsa a você é leve demais para esmagá-lo a cada momento em que sei da sua imagem, sua significação, pensando ou vendo. A culpa é o que menos importa. Quem nunca matou um cão? É como amar, só que não dói... é amar do avesso.
As suas palavras não trarão nada de volta, pois estar respirando sem peso nunca existiu... mesmo na criança havia o medo de estar só em casa, na manhã seguinte. Um Fausto já tentou a salvação que você procura... Todo o conhecimento, toda a inteligência, todo o amor - e você sabe que nem lhe servem! A salvação não virá porque eu também sei que o outro é nada mais que um universo ao lado, sem pontes possíveis. O outro sou eu sem mim.
enviada por Sol
25/05/2004 19:25
Ok, ok, ok...
o post aí embaixo é mesmo clichê ...
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Eu naum acredito em Papai Noel, nem na Coca-Cola, nem no Fome Zero, nem em heteros masculinos(isso existe?), nem no W. Bush, nem em sonhos, nem em bombas necessárias, nem em calorias ( nem na balança e nem nas minhas calças jeans q naum servem mais), nem na virgindade da Sandy, nem em felicidade (qualquer felicidade q naum a efêmera alegria de esquecer de si por segundos), em amor ( amor naum existe, porra!) , nem em signos ( naum dizem q escorpianos saum místicos? pois é, nada a ver!) , nem nas cartas, nem nas palavras (palavras, palavras, palavras.... repita isso muitas vezes até q perde o sentido, é legal!), nem em duendes, nem na evolução, nem na Matrix, nem na Filosofia, nem em Hollywood, nem em mim mesma, nem em vocês todos, nem... nem... nem... ah, q se dane!
porra!
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ah.... eu sou cética sim! adoro ser cética( e odeio ser cética), mas claro q até queria ser mais ainda... porém, acho q já sou descrente o suficiente a ponto de duvidar de certas verdades intelectuais e abstratas ( quase nunca de verdades imediatas , presentes, concretas, do mundo sensível, q surgem no próprio ato do qual são feitas, de verdade agora, de verdade contexto... isso é ser ingênuo? tolo? não-filosófico? talvez, mas há certa sabedoria em sentir as verdades simples... uma sabedoria q eu NÃO tenho)...
Enfim, não acredito em amor, felicidade, deus, justiça e nem na seleção brasileira de futebol desde a copa de 94!
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Eu só sei q existo... e que passo, nada mais. O resto é viver distraidamente.
" Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa
Não sou alegre nem sou triste,
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
No vento.
Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço ou me desfaço,
não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
mais nada. "
Motivo- Cecília Meireles
http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx a
enviada por Sol
20/05/2004 18:37
enviada por Sol
18/05/2004 12:17
O Inseto
Ele andava com pensamentos sujos e trabalhava sem ar condicionado 6 escravas horas por dia, odiando o computador, titubeando palavrões ininteligíveis e com cupins alados emaranhando-se por entre seus cabelos untuosos e seborréicos. A gravata o capturava menos que o mormacento odor da rua queimando dióxido de carbono pela janela. A luz doía-lhe mais nos ossos do que nos olhos. Luz clara e artificialmente sufocante em lâmpadas fluorescentes que não esquentam nem gastam muita energia, mas infernizam.
Joshua Quin matou mais de 78 (talvez centenas até) ao fim daquele dia inteiro perdido no escritório. E suas crocantes e pequeninas asas (asas deles) ainda espalhavam-se até se perder por entre paletó, calças, e colarinho e cabelos lisos, e pretos e mais oléicos que a alma.
Matou e dormiu mal, mas o pequeno ventilador estava ligado... pelo menos.
por Jocasta Non Casta
Sexta-feira, Setembro 05, 2003
enviada por Sol
13/05/2004 17:00

II
E, no entanto, só quero dizer-lhe que nos enganamos
hipocritamente o tempo todo
Mas, engraçado...
Nos enganamos quando pensamos ou quando sentimos?
Ah, meu amor!
Você pensa com o corpo todo,
pensa com os sentidos em turbilhão,
pensa cálido como seus desejos.
Eu também, eu sei..
E que há de nós que não saibamos?
Sabemos.
Você de si.
Eu de mim.
Só de pensar, logro conhecer
É que guardo o de fora, guardo descrições do mundo,
guardo até o que dizem e escrevem
aqueles que perceberam sós o que ainda não percebi por mim.
De pensar, construo
E a mesma destruição vem do contínuo pensar
de todos. Penso com palavras?
As palavras constroem as definições.
As palavras não criam o pensamento, criam a forma de pensar
( a estratégia de pensar, o jogo de pensar...
as palavras criam a razão...
razão não é pensamento , é parte dele...
já que pensamento é tb associar, imaginar, sonhar).
E é assim que tenho sentido: pensando.
Claro, primeiro a sensação por si,
como a luz que me arde nos olhos ao sair da caverna.
A percepção,
os sentidos.
Depois, acostumada às formas.
E sinto então com o pensamento,
alimentada pelo pensamento,
aniquilada pelo pensamento.
Destruo assim a vontade de amar?
Não,
o desejo não é pensar.
Eu desejo apenas,
desejo a partir do sentir,
da luz,
da dor,
do id.
E não há razão que bloqueie,
limite ou crie em mim uma paixão.
A razão é um jogo, já disse.
Brinca com os sentimentos,
não os cria nem impede de existir.
Uma paixão não retorna,
apenas morre/nasce outra nova,
outra estranha e boa.
Estranha porque experimento estranho
o de fora, não o eu.
Pelo pensamento, vislumbro-me irremediavelmente só.
Presa a um corpo,
a um limite,
a uma configuração...
única,
ainda.
Meu tempo, meu jogo, minha razão, meus caminhos, minhas experiências,
e lembranças
e imagens
e decisões e cabelos e braços,
olhos, dedos e estômago.
Meu eu.
Cansado e descrente,
sem qualquer doutrina ou sabedoria.
Sem verdade, razão, motivo, satisfação ou anseio fiel.
Sem misticismo, sem teogonia - "e agora , José?"
Sem respostas,
cem perguntas ( cem mil perguntas e muitas mais!)
Sem ciência, sem consciência e sem santificação.
E a salvação? Não há.
Nenhuma.
Então por que e , principalmente,
(se já tanto caí, cicatrizei, abri ferida
novamente)
por que é que insisto?
Ora, se já não posso mais acreditar,
se nenhuma apologia, se nenhum altar,
se palavras ao vento,
se nada há em que me deposite ilusoriamente,
em busca distraída pelo completo.
Se já sei que não me basto,
então por que o o outro? Por que você?
Porque não-eu...
porque imprevisível, porque único mistério sobre a Terra,
porque impossibilidade,
porque existência experimentada jamais
por outro além.
Você porque você.
Qualquer um... ora!
Que merda!
Então, por que não qualquer um?
enviada por Sol
06/05/2004 17:09
Não que todas as músicas abaixo sejam da Cássia... mas são as versões dela que quero ressaltar aqui...
Palavras ao vento
>>Cássia Eller
Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança
Em seu lugar
Que o nosso amor pra sempre viva
Minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será
(Refrão)
Palavras apenas,
Palavras pequenas,
Palavras momento.
Palavras, palavras,
Palavras, palavras,
Palavras, ao vento.
Relicário
>> Cassia Eller
É uma india com colar
A tarde linda que não quer se por
Dançam as ilhas sobre o mar
Sua Cartilha tem o A de que cor?
O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário e ninguém reparou
O que está acontecendo?
Eu estava em paz quando você chegou
E são dois cílios em pleno ar
Atrás do filho vem o pai e o avô
Como um gatilho sem disparar
Você invade mais um lugar
Onde eu não vou
O que você está fazendo?
Milhões de vasos sem nehuma flor
O que você está fazendo?
Um relicário imenso deste amor
Corre a lua porque longe vai
Sobe o dia tão vertical
O horizonte anuncia com o seu vitral
Que eu trocaria a eternidade
Por esta noite
Porque está amanhecendo?
Peço o contrário ver o sol se por
Porque está amanhecendo?
Se não vou beijar seus lábios
Quando você se for
Quem nesse mundo faz o que há durar
Pura semente dura o futuro amor
Eu sou a chuva pra você secar
Pelo zunido das suas asas você me falou
O que você está dizendo?
Milhões de frases sem nehuma cor
O que você está dizendo?
Um relicário imenso deste amor
O que você está dizendo?
O que você está dizendo?
Por que está fazendo assim?
Está fazendo assim?
Iehhhhhhhhhh!
Está fazendo assim?
Primeiro de Julho
>> Cassia Eller
Eu vejo que aprendi e o quanto te ensinei
E é nos teus braços que ele vai saber
Não há porque voltar
Não penso em te seguir
Não quero mais a tua insensatez
O que fazes sem pensar aprendeste do olhar
E das palavras que eu guardei pra ti
Não penso em me vingar
Não sou assim
A tua insegurança era por mim
Não basta o compromisso
Vale mais o coração
Já que não me entendes, não me julgues, não me tentes
O que sabes fazer agora
Veio tudo de nossas horas
Eu não minto, eu não sou assim
Ninguém sabia e ninguém viu
Que eu estava ao teu lado então
Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha, minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser
Sou Deus, tua deusa, meu amor
Alguma coisa aconteceu
Do ventre nasce um novo coração
Não penso em me vingar
Eu não sou assim
A tua insegurança era por mim
Não basta o compromisso
Vale mais o coração
Ninguém sabia e ninguém viu
Que eu estava ao teu lado então
Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha, minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser
Sou Deus, tua deusa, meu amor
Baby, baby, baby, baby...
O que fazes por sonhar
E o mundo que virá pra ti e para mim
Vamos descobrir o mundo juntos, baby
AH!Quero aprender com o teu pequeno grande coração
Meu amor, meu amor...
enviada por Sol
06/05/2004 15:45
Ter

É como se eu tivesse uma verdade... que nem eu mesma sei qual ou o que é, mas a tivesse... desde ontem. E agora ela está. Engraçado é que não é, apenas está.
Outra coisa, é que... não sei bem onde. Está? Mas se está, existe... Existindo então fica, permanece, torna-se... até ser, até que é. Mas, como é se nem sei onde, se nem sei o quê? Uma verdade.
Não, e nem é como daquelas românticas. E nem está como ser a partir da existência , a partir de um não-ser anterior, um não-ser infinito. O que não tem de ser (como num poema romântico, eu acho, do Pessoa).
Não. Não isso. Não romance objeto, não matéria de amor.
Só verdade. Só o mundo. Só tudo, não a restrição. Só o completo, não eu. O não-eu, talvez isso. Era isso? A verdade? O não-eu? Algo mais, porém, perto assim.
Desde ontem tenho a verdade dos que não querem. Dos que, porque a têm, não sabem... Não podem mais saber, ou querer , ou conhecer. Explicar, não! Escrever, oh deus (sic)! Não, não podemos, não há... não sei, não sabemos. Não existe escrever. Dizer? Só se for um não! Falar só se negar, negar-se, negar-lhes. Eu nego! Eu... ego...
Ora, só tenho a verdade... não sei que fazer com ela...
enviada por Sol
29/04/2004 17:29
Retrato Escrito.

Eu estava enterrando-o vivo.
Era dia claro, ensolarado e o ar batia fresco no meu rosto. Sentia-me livre, diria a qualquer um que me perguntasse que já o superara e saberia viver bem sem tê-lo comigo o tempo todo. Estava segura, meu plano era tão perfeito que nem eu mesma percebia seu detalhes menores, reais. Bastava sorrir, dizer olá ao mundo em volta, responder que estava até feliz agora que tanto sofrimento finalmente acabara.
Eu o enterrava sozinha.
Tentaram me oferecer ajuda, braços, palavras, força, paz e pás de areia e cal... Mas, eu sabia que pressentiriam meu segredo. Não poderiam se aproximar demais, pois me veriam translucidamente em fuga e me denunciariam, reprovariam, revoltariam-se todos contra mim. Sentiriam nojo e ódio se pudessem me ver em toda minha plenitude através da nudez crua daquela tarde.
Seria merecido, mas eu não queria pensar em nada.
Estava tão bem, o vento tinha um cheiro e um toque que ao mais leve contato me revigoravam e eu ria tal qual uma criança solta num imenso parque com gangorras e grama verde.
Enquanto sentia a leve respiração que fluia dele, mesmo que seu rosto desfigurado já nem me lembrasse mais porque eu deveria matá-lo, e podia ver a pulsação dolorida que fazia a terra fofa tremer sobre seu peito, era como se nada pudesse me atingir. Ficaria longe dos olhos do mundo, seria forte e confiante para todos... Tanto que até ele sentiria o peso da minha vitória.
Eu o guardava, como um tesouro.
O sol brilhava quente nos meus olhos e o calor lascivo que percorria meu corpo, enquanto já quase terminava de cavar, era todo de um prazer estranho... e bom. Sentia-me superior a todas essas mentiras reais ou estatísticas dos pobres outros, das suas vidas patéticas e pequenas. E minha alegria fervente estava a ponto de cegar qualquer um deles, se o acaso os levasse para tão perto das minhas chamas de felicidade incontida.
Eu enterrava seu corpo frágil de dor e o protegia.
Mais uma vez, quis senti-lo... Saber sua respiração roufenha no meu pescoço, olhar o amargo ruim da sua boca contorcendo o que sobrara de rosto e arrastar meus dedos por cada chaga rasgada daquela sua pele de tantas veias azuis.
Porém, não pude.
Repentinamente frio e imóvel, eu o perdi para a escuridão. Não adiantava pedir ou acreditar em fantasmas. A fé voltava ao seu natural estado infértil de utilidade, porém, muito pequena diante daquela real ausência a meu lado. Seu lábio já completamente descolorido, sem gosto, o pulso seco, nenhum sinal de amor, alma ou luz qualquer dentro dele. Nuvens e sombra cinzas sobre nós. Sobre mim, minha confusão de pensamentos em choque e minhas malditas sensações colidindo, e sobre aquele apenas pedaço de pedra árida. Meu Deus, (Deus?) eu enfim entendi...
E foi somente assim, querendo morrer também, que eu agarrei com ódio a terra molhada de sangue coagulado ( ou por lágrimas, não lembro bem), fincando unhas entre os pedregulhos, e o empurrei para o buraco obscuro e vazio.
Já se fazia noite quando, quase sem forças, terminei de enterrá-lo e fui para casa chorando. Percebia o fim, que para ser fim, doía , tinha de doer.
Resignadamente, eu marchava. E era como se meus braços e pernas se perdessem de mim, em menos de segundos, e logo reaparecessem: fracos demais para equilibrar ou sustentar o resto do corpo... Caminhava acre como um soldado em meio à chuva, à lama, à bestialidade estúpida de uma guerra perdida, de qualquer guerra.
Só agora, morto, eu o abandonava completamente só.

enviada por Sol
23/04/2004 00:01
Cenário: Uma cadeira e uma mesa de madeira com um vaso de flor e uma garrafa de pinga. Um telão no fundo, escrito: Silêncio. A peça "Meu Amor...(no masculino)" começará logo. Favor não conversar em voz alta. Seja bem-vindo e sinta-se à vontade.
Não há ninguém no palco. Toca-se ao fundo várias músicas, aparentemente, sem função na peça, apenas pra distrair a platéia enquanto o monólogo naum começa.
Fundo musical: Pout-porri com Brasil/Burguesia/O Tempo Não Pára
Um rapaz com calça jens, camiseta branca e uma camisa azul por cima, barba e bigode por fazer, começa a distribuir papéis com trecho de um poema de Álvaro de Campos para a platéia.
O rapaz sobe no palco, displicentemente. O trecho do poema aparece no telão.
O trecho:
"Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
(Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!"
Monólogo: " Meu Amor... (no masculino)"
Você queria apenas que eu nunca tivesse existido, não é? Vadia, vaca. Merda, merda!
Que foi? Que cara é essa? Não está acostumada a ser tratada desse jeito?
Ah, bem... [cínico]
Talvez você prefira que eu me recline, baixe a cabeça, fale pau-sa-da-men-te...
Não, não. Isso é muito pouco, vc quer muito mais. Você quer vinhos e champanhes caros! Você quer que eu me ajoelhe...
Quer agora? Assim? Quer que eu baixe minha cabeça, beije a pele delicada da sua mão? Seus pés? [gradualmente sensual] Quer que eu beije seus pés? Lamba cada um dos seus dedos, seus joelhos, suas coxas, sua vulva, sua vaca... Assim você quer, não é? Sussurrando no seu ouvido, vadia, puta, cadela... piranha... Você quer que eu diga baixinho? Você quer devagar? Você quer assim? Você que por cima? Tudo bem... Você quer. Você quer, você, controle, quer, quer, poder, controle, você, você, você.
[ameaçador]
Você quer ter o controle sobre mim, não quer?
Você não pode! Eu existo!
E eu não sou como você, não sou como vc quer, como vc exige. Não compro seus sonhos, eles não me satisfazem. A felicidade que vc vende não me serve pra nada. Sabe por quê? Porque eu te vejo. E porque eu tb não sou feliz, igual aos outros, igualzinho aos outros eu tb naum me satisfaço, eu naum me basto, eu naum sei o amanhã, eu naum controlo a minha própria vida... naum a ponto de inventar o tempo todo que sou feliz.
Aí é que vc entra, é essa a brechinha de alma que vc aproveita e nela se enfia, se mete espaçosa e rápida, gemendo alto, pra gozar barulhenta as suas promessas de prazer absoluto.
Mas pra mim vc naum tem nada. E é por isso que vc me odeia tanto, né? Por isso vc naum me deseja, por isso vc me castra, me violenta, me ateia fogo com pinga barata, me cospe, humilha, ridiculariza, envenena, esconde, me esconde, me põe no gueto, no campo de concentração, no circo, na novela das oito!
[ repentinamente afetado]
Você que que eu desmunheque, afine a voz e te chame de "Amiga!" "Fofa, cê não sabe o bofe que eu encontrei ontem na balada! Ele era tudo de bom! Tu! Do! " . É assim que vc me quer, linda? Um arremesso de coisa feminina? Uma paródia de mulher? Uma alegoria carnavalesca de Eva? Uma piada, uma falsificação bizarra, uma excentricidade inofensiva e cômica, igual a palhaços e tortadas de chantili? [mais afetado] Quer um cabelereiro, um costureiro, um dançarino de balê?
[amaeaçador] Eu sou um homem, sua vaca!
Sou um ser humano como todos : único e diferente de cada outro. Eu não me adapto a nenhum dos seus papéis prontos, dos seus tipos imutáveis. Sua nordestina desbocada, aquela sua imigrante de bixa na barriga e filharada, seus proletários preguiçosos, seus malandros de bigodinho, camisa aberta, suorenta e o celular de contrabando no cinto da calça. Sua socialite de boutique DolceVogueArmaniRabane e rabinho perfumado esfregando na cara do chofer. Seus pretos, crioulos, macacos, seus neguinhos pichains, sempre tapados, imbecis, violentos, favelados. Ah, aqueles seus esportistas de músculos perfeitos, vencedores, poderosos! Seus casaizinhos lindos, ricos, brancos, apaixonados: ela loira, ele olhos azuis, ela anoréxica, ele marombado, anabolizado ... Os dois vendendo saúde e corpo e silicone e coração e alma e... nenhum cérebro ( Cérebro? Cérebro, pra quê ? Pra pensar? Ora, pensar só causa angústia e cansaço.)
Esse é o SEU conjunto de tipos. Essa é você!
É assim que vc corta, recorta, etiqueta, rotula e embala.
Suas paixões têm preço e naum custam pouco, naum. Seu amor é tão brega, cheira a datas comerciais, lágrima de cinema, gasolina, álcool, cigarrinho e banheira suja de motel...
[ Suspiro. Volta-se p/ platéia.]
Ora, q mulheres saum vcs? Que ainda se submetem a ela, que ainda aceitam as leis dela ou entaum se viram sozinhas? Que espécie de independências vcs querem, hein? A solidão?
E vcs? Que homens vcs saum? Por que naum se transformam, naum evoluem de uma vez? Que caras aparvalhadas, perdidas, patéticas são essas? Quer o trono de volta, meu amigo? Quer a senzala e o sistema patriarcal? Quer que elas se calem, se sujeitem e ainda lhes sejam gratas pela casa e a [ gesto obceno] comida? É isso?
Merda! Vcs saum todos loucos, cegos.
Eu naum tenho tempo pra vcs, naum tenho tempo nem pra mim... nem pra Freddie... Freddie, oh Deus!
[suspiro. abana a cabeça, um tanto melancólico]
[depois vira-se para a platéia c/ olhar cínico e c/ um tom mais forte e irônico de voz, quase alegre]
Evitar o seu olhar, minha querida vagaba? Evitar que vc nos veja? É só isso que eu preciso fazer? Mais nada? Já que existo, não é? Já que Hitler está fora de moda e vc naum pode me eliminar. Já que Freud naum explica e tb naum me cura. Entaum o melhor é me afastar, ficar no escuro.
Nunca abraçar... Entrelaçar as mãos, Jesus, que blasfêmia! Qualquer carinho sincero, qualquer demonstração espontânea de afeto, qualquer toque humano e tão necessário como o oxigênio. Um beijo, que horror! Que nojo! Asco, repugnância, náusea de vômito!
[grita, apontando a platéia] Puta que pariu, olha aquelas bichas no meio da rua, que imúndicie! Joga água, separa, põe fogo, castra, lincha! Que animalesco, que falta de vergonha na cara! Quanta imoralidade! [ andando para um lado e outro, como uma velha beata] Oh Deus, oh Jesus Cristo Salvador, todos os santos e anjos! Oh, Minha Nossa Senhora! Isso não é de Deus, não, não... Esses sodomistas vão todos pro inferno! [ grita, exaltado, ameaçando a platéia] Demônios! Satanás! Filhos do cão!
[pára, acalma-se e com um leve sorriso irônico no rosto fala com um tom tranqüilo]
É. É assim que vc reage a mim.
Vc vende o amor e nem mesmo acredita que ele exista. Não, vc não sabe, não... [exaltado]Sua cadela, vc naum sabe o que é o amor!
[cínico] E como essa palavra fica feia na sua boca , igual a bílis apodrecida ela se escapa dessa sua horrível garganta e amarga qualquer coisa que encontra em volta e aí então, no fim, deixa tudo com essa aparência fria... de plástico e neon.
[melancólico]
Oh, Mary, minha menininha... Vês? É isso que ela te vende... E é só isso que eu poderia te dar, se me vendesse a ela.
Eu queria te salvar, porque eu te amo, Mary! Tu sabes, deves saber muito bem, apesar das tuas ilusões e teus preconceitos...
Chora, machuca-te, arranha-te... Talvez as cicatrizes te sustentem e te mostrem caminhos... façam-te mais adulta e mais preparada. Oh, minha pequena!
Droga! Merda, merda, merda! Eu não posso fazer mais nada... Eu estou cansado, tão cansado... Estou sozinho, não agüento mais lutar. Eu só queria um abraço. Freddie.... [com olhar perdido] Ah, Freddie, se tu soubesses...
[repentinamente sarcástico , sorrindo, olhando diretamente p/ platéia]
O que foi? Que cê tá olhando? Do que cê ta rindo, vadia? Acha minha desgraça divertida, não é? Seu consolo é me ver ferrado e sem ninguém comigo pra te enfrentar, te escandalizar. Bem que vc gostaria de um espetáculo desses, hein? Vc adora uma polêmica... E mais do que isso, vc adora uma condenação, uma crucificação de pecadores em praça pública!
Como vc precisa de mim, maldita! Como me deseja pra servir de bruxa na sua fogueira, servir de exemplo pros seus escravos... E já são tantos e tão óbvios. Ria, ria de mim. [grita, ameaçador] Finja que me aceita, hipócrita!
[dá uma longa gargalhada]
[irônico]
Ah, minha linda, minha linda! Durma bem. Feche os olhos, descanse, alongue-se, boceje... tenha bons sonhos, meu amorzinho! Perca-se nos seus castelos e mentiras! Vá pra casa, beije seus filhos na testa, compre-lhes a alma com belos brinquedos high tech e engorde-os com todas essas porcarias super calóricas. Seja feliz, seja tão feliz!
Ah,meu amor, meu amor , meu amor!
[sentado na cadeira, ele olha pro vaso de flores enquanto a lua vai diminuindo e a música aumentando...]
[fundo musical - Cazuza, Faz Parte Do Meu Show]
"Te pego na escola e encho a tua bola com todo o meu amor
Te levo pra festa e testo o teu sexo com ar de professor
Faço promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão
Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor
Meu amor, meu amor, meu amor... "
enviada por Sol
12/04/2004 12:02
Acho que meu tempo já acabou. Preciso crescer... adultecer.
Os poetas, meu poetas, me enganaram. Os escritores, todos eles, e os compositores de rock (embora esses nem tanto) e os de MPB também, todos armaram contra mim. Tudo foi apenas um grande engano ( e eu q achava q só pq vacinada contra o cinema estaria livre da peste).
O AMOR foi inventado pela Literatura.
Meu pai estava certo. É preciso casar e ter casa; compromisso, responsabilidade, dinheiro, família, moral, religião... Sobretudo religião ...e dinheiro, claro!
Sim, ainda os mesmos. Sim, como nossos pais. A diferença é que a vida hoje (qdo naum se é mais jovem) cansa mais do que dói.
Minha dor é desejar que não doa e cansaço é repetição. Já não sei se desejo, sei que repito e repito e repito e repito... repito... repito... Quem roubou nossa coragem foi o cansaço.
(Hhhh... se ao menos pudéssemos esquecer!) Mas o mundo não começou qdo nascemos.
E sou menos "daquela profundidade superior" dos Homens Superiores do que uma qualquer com suas ilusões menores findas. É que, já disse, amor é uma invenção literária, é uma figura de linguagem, um recurso poético e semiótico de sedução. E só agora é que percebo, como quem finalmente descobre que não sabe (nunca soubemos).
As paixões cabem em comprimidos, o amor é tb figura de estilo e desfile de moda. Sentimentos são hormônios e razão é ferramenta, deve ser prática e ter utilidade, preferencialmente, imediata, pra garantir alguma existência.
Memórias são interpretações fora de contexto e todo texto é memória reinterpretada.
>> memórias tb são neurônios >>
Felicidade é estar distraído. Pensar pouco, de imediato, fora de si e só sobre o meio material é vida suportável, aquilo que chamam de real.
Pensar demais é angústia induzida.
_________
Todas as palavras são generalizações. Definir é abrir mão de uma porção de significados. Ou enfatizar apenas um ( ou 2, sei lá) dos incontáveis entendimentos do objeto, da coisa.
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Este texto faz tão somente ISSO. Î
enviada por Sol
12/04/2004 11:21
enviada por Sol
06/04/2004 14:35
Meu primeiro post , em 02/04/03, fez aniversário na última sexta.

Estranho... Parece que este blig resistiu bravamente a 1 ano de experiências indescritíveis e posts ininteligivelmente impublicáveis...
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E a vida continua.
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...
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até qdo?
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...

enviada por Sol
01/04/2004 22:48
Repercussão é bom, mas o melhor é poder opinar e discutir livremente com pessoas tão incríveis como estas abaixo:
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>>
>>
enviado por: Thiago
Wow, to sem palavras... muito BOM o que vc escreveu Sol. Só vale lembrar que o português chamado de "padrão" não existe enquanto língua falada, nem enquanto língua materna de nenhum falante de português brasileiro. Ele existe apenas na forma escrita monitorada e mesmo assim não plenamente. O que nós temos de entender, principalmente os futuros professores da língua, é que o português é heterogênio, não uma unidade, que deve ser ensinado e explicado de forma lógica, de modo que os processos pelos quais a língua trabalha sejam explicitados e não impostos...
Ótimo lembrete, Thi!
Ah! E um elogio de um veterano, ainda mais um como vc, é verdadeiramente um alívio (ou seja, alguma coisa aprendi!) e uma alegria inexplicável, Thi! Valeu!
Bem, depois das "manifestações de apreço ao sr diretor", continuo meu discursinho...
É incrível como transformamos essa ferramenta que é a padronização da língua escrita em uma "entidade" superior e inacessível para os mais "burrinhos". O Português, tanto escrito como falado, obedece regras tão lógicas como qualquer ciência. Basta jogar fora seus velhos preconceitos e estar disposto a entender as respostas.
Oh, e como é "simples" não termos preconceito, né gente? Seria tudo tão mais fácil...
_____________
enviado por: TOM
BliG: http://www.aprocuradotom.blig.ig.com.br
Sol, Sol, Sol....Incrível sua capacidade de argumentar coerentemente e impressionante a força de sua crítica. Concordo com você na constatação de que a pobre da "outra" Sol não teve as mesmas oportunidades de frequentar osa bancos escolares que nós. E acrescento que muito mais triste que os erros da Sol é a prepotencia de alguns estudantes universitários que fazem questão de ressaltarem sua posição superior somente por acreditarem que possuem um domínio da norma culta e certos conhecimentos específicos, os quais, jamais pararam para pensar em sua aplicação cotidiana. Acredito que cabe a nós observarmos estes fenomenos que invadem a nossa casa diariamente pela TV e dar a eles uma atenção mais cuidadosa como esta feita por vc. Óimo post, continue com esta linha de textos por aqui de vez em quando. Provocações é o que nÃo nos falta.
Levantou a bandeira certa, Tom! O mínimo que deveríamos fazer com nossa formação é abrir caminhos e mostrar as deficiências do julgamento geral, do senso comum, do que se entende por verdades absolutas. E o preconceito lingüístico é mais um desses preconceitos fantasmas da nossa sociedade. Esses falsamente invisíveis, os quais apenas fingimos que não existem... E há muitas pessoas que nem sequer percebem o quanto ele discrimina e marginaliza.
Eu sei que é clichê - mas ora! - é nossa obrigação para com as pessoas que "pagam" nossa formação, a tal sociedade que tanto criticamos, lhes devolvermos responsavelmente esse investimento. Ridicularizar essas pessoas pelo "favor obrigatório" que nos prestam não tem nada de superior.
_____________
enviado por: Gil
Que máximo, Sol. Adorei.
Isso aí, gil!
ps.: comentário sucinto, resposta sucinta!
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enviado por: sol
Obrigada pelas palavras, Thiago, Tom, Gil !!!
vcs saum d+ !
ah, obrigada aos outros tb!
_____________
enviado por: Lailath
Oi ... achei seu blig pelo Fejones , que mandou um e-mail com seu post ... mto legal ...
www.ondeomaracaba.blogger.com.br
Valeu por aparecer, este blig está sempre de portas abertas a quem quiser se perder em bobagens à toa e críticas óbvias como as minhas!
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enviado por: Panthro Samah
As pessoas tem raiva da Sol porque ela mostra que você não precisa saber nada de porra nenhuma pra viver bem e feliz. E que todo esse nosso conhecimento só traz cansaço e angústia. Mas fazer o que, eu sou "narcisista" mesmo.
Vc tem razaum, panthro. A Solange, ex-bbb4, era alegre e tinha orgulho disso. Ela é "narcisista" tb, eu sou, o Dalai Lama é e Jesus Cristo tb foi... Se pensarmos q qualquer das nossas atitudes saum medidas em nós, nossos valores, naum há como dizer que naum nos orgulhamos de ABSOLUTAMENTE NADA do que somos. Ela era orgulhosa e foi duramente criticada por isso. Eu só questionei a direção da crítica... E fiz isso, principalmente, pq sou aspirante à lingüista e esse é meu campo de atuação. Uma obrigação? Uma pretenção? Tanto faz, TODOS somos narcisistas!
___________
enviado por: Fejones
(Eu tinha feito 1 comment q, sei lá pq, ñ apareceu... Mas...)
Excelente crítica! Vc pegou p/ olhar ponto-de-vista interessante, ainda que seja óbvio... Mas ñ tão óbvio assim, levando-se em conta que as imagens e a ênfase a esses "defeitos" dela - e de tds os participantes - são veiculadas no intuito de induzir os povos que acompanham a ter essa visão ridícula de "juízes"!
(Pra ficar legal, parece que só o "promotor" é que tem voz nessa idéia...)
Pois é, fejaum. O negócio meio óbvio da minha crítica foi pq eu generalizei a idéia um pouco no começo, mas o principal é passar o recado do preconceito lingüístico, que naum é tão claro e óbvio assim. Q o bbb naum presta, toos já sabem. Fofoca, invasão da vida alheia, Ibope... tudo já foi dito. Tirar sarro da Sol tava virando crítica taum exata e lugar-comum como essas, só que naum é a mesma coisa. Naum quero defender a ex-bbb a qualquer custo, mas a acusem dos crimes reais (em sua maioria, cometidos contra ela mesma. Assim como os outros tb). Ah, fejaum, naum tou te criticando, naum! só aproveitei a deixa.
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enviado por: Netinho
Linda Sol, nao fiquei impressionado com todo o brilhantismo do seu texto, como tanto salientaram nossos amigos comentadores.O coracao da tua mensagem pode ser visto nas nossas rodas " botequineiras" do 509, com muita leveza e humor fino, e tambem grosseiramente na nossa faculdade, na voz dos nossos coleguinhas de classe reacionarios( a lingua deles poderia ser usada pra coisa bem melhor, alguns sao bem bonitinhos).
Estou me abstendo de tecer grandes comentarios: talvez falando demais eu contradiga seu texto e, principalmente, mostre o quanto eu sou parcial, filho da mae. Ai, Sol, como os primeiros paragrafos foram felizes: nao e so Manuel Bandeira que sofria de Impregnacao.A bosta desse comentario e que ele ja esta impregnado das vezes em que eu assisti aquelas pegadinhas do Joao Kleber, Faustao e Gugu( que se, de fato, eu nao for cego e nem surdo sao as mesmas)e fiquei maravilhado com todas as mentiras e , mais ainda , critiquei a falta de bons cristaos aos leoes.E triste, ne?
Descobri recentemente que sou muito criativo.Ja que nao posso ser nojentinho(dada a minha consaguinidade )com negros, gays, pobres e tantas outras castas que sem o preconceito nao existiriam, eu invento novas mais.Nao e legal?Pelo menos nao sou um sujeito estagnado.Quanto a Sol do bbb4, prefiro a Cida, porque nao sei e acho que o Buba deveria posar nu.Contribui para o seu forum?Desculpe-me, so estou querendo ficar na contramao, uma vez que sua prosa so mostrou que nao possuo metade das virtudes que um dia pensei tomar contato.Fazer o que? Beijo, moca...
Um comentário como esse só mostra a sua criatividade e seu valor, Neto. E nada disso é pouco , naum. Vc fala através de paradoxos, antíteses e ironias. Refinadas ou naum? Isso naum interessa! Vc fala quem somos todos : um público de coisa fina como Faustão e Gugu nalguma época da vida, pretensiosos, lunáticos, alegres, "alienados sim e daí?", gozadores ( em vários sentidos, uhu!), poéticos, bêbados, loucos... Seu texto naum é contramão, é um balanço total e um auto-retrato em que muitos mais se encaixam, além de vc mesmo. Eu me refleti nele! Também sou "muito assim" e naum quero passar sermaum em ninguém, só discutir um ponto de vista e bater papo com amigos.
____________
enviado por: Panthro Samah
Concordo, o Buba deveria posar nu!! Vamos começar um movimento.
Naum creio que seja necessário "muito movimento" (movimento, hummm!) para q isso aconteça . Será q ele nunca pensou nessa possibilidade? Claro q sim. Qto a publicação, a "G" certamente naum nos negaria o favor.
________
enviado por: TOM
BliG: http://aprocuradotom.blig.ig.com.br
Eu prefiro o coveiro! O Buba é bombado! (que legal, deu até aliteração!)
Concordo com o Tom! ... Mas, estou à espera do Tiago : simples e natural! (uh, DELíCIA!)
Olha, galera, nem precisa comentar mais naum. Meu ego já tá bem saciado, heheheheeh!
enviada por Sol
31/03/2004 16:02
Retrato Escrito.
Eu estava enterrando-o vivo.
Era dia claro, ensolarado e o ar batia fresco no meu rosto. Sentia-me livre, diria a qualquer um que me perguntasse que já o superara e saberia viver bem sem tê-lo comigo o tempo todo. Estava segura, meu plano era tão perfeito que nem eu mesma percebia seu detalhes menores, reais. Bastava sorrir, dizer olá ao mundo em volta, responder que estava até feliz agora que tanto sofrimento finalmente acabara.
Eu o enterrava sozinha.
Tentaram me oferecer ajuda, braços, palavras, força, paz e pás de areia e cal... Mas, eu sabia que pressentiriam meu segredo. Não poderiam se aproximar demais, pois me veriam translucidamente em fuga e me denunciariam, reprovariam, revoltariam-se todos contra mim. Sentiriam nojo e ódio se pudessem me ver em toda minha plenitude através da nudez crua daquela tarde.
Seria merecido, mas eu não queria pensar em nada.
Estava tão bem, o vento tinha um cheiro e um toque que ao mais leve contato me revigoravam e eu ria tal qual uma criança solta num imenso parque com gangorras e grama verde.
Enquanto sentia a leve respiração que fluia dele, mesmo que seu rosto desfigurado já nem me lembrasse mais porque eu deveria matá-lo, e podia ver a pulsação dolorida que fazia a terra fofa tremer sobre seu peito, era como se nada pudesse me atingir. Ficaria longe dos olhos do mundo, seria forte e confiante para todos... Tanto que até ele sentiria o peso da minha vitória.
Eu o guardava, como um tesouro.
O sol brilhava quente nos meus olhos e o calor lascivo que percorria meu corpo, enquanto já quase terminava de cavar, era todo de um prazer estranho... e bom. Sentia-me superior a todas essas mentiras reais ou estatísticas dos pobres outros, das suas vidas patéticas e pequenas. E minha alegria fervente estava a ponto de cegar qualquer um deles, se o acaso os levasse para tão perto das minhas chamas de felicidade incontida.
Eu enterrava seu corpo frágil de dor e o protegia.
Mais uma vez, quis senti-lo... Saber sua respiração roufenha no meu pescoço, olhar o amargo ruim da sua boca contorcendo o que sobrara de rosto e arrastar meus dedos por cada chaga rasgada daquela sua pele de tantas veias azuis.
Porém, não pude.
Repentinamente frio e imóvel, eu o perdi para a escuridão. Não adiantava pedir ou acreditar em fantasmas. A fé voltava ao seu natural estado infértil de utilidade, porém, muito pequena diante daquela real ausência a meu lado. Seu lábio já completamente descolorido, sem gosto, o pulso seco, nenhum sinal de amor, alma ou luz qualquer dentro dele. Nuvens e sombra cinzas sobre nós. Sobre mim, minha confusão de pensamentos em choque e minhas malditas sensações colidindo, e sobre aquele apenas pedaço de pedra árida. Meu Deus, (Deus?) eu enfim entendi...
E foi somente assim, querendo morrer também, que eu agarrei com ódio a terra molhada de sangue coagulado ( ou por lágrimas, não lembro bem), fincando unhas entre os pedregulhos, e o empurrei para o buraco obscuro e vazio.
Já se fazia noite quando, quase sem forças, terminei de enterrá-lo e fui para casa chorando. Percebia o fim, que para ser fim, doía , tinha de doer.
Resignadamente, eu marchava. E era como se meus braços e pernas se perdessem de mim, em menos de segundos, e logo reaparecessem: fracos demais para equilibrar ou sustentar o resto do corpo... Caminhava acre como um soldado em meio à chuva, à lama, à bestialidade estúpida de uma guerra perdida, de qualquer guerra.
Só agora, morto, eu o abandonava completamente só.
enviada por Sol
27/03/2004 23:31
PQ EU ODEIO o fenômeno "Sol do bbb4"?
Assim como todo mundo que eu conheço ( que jamais admitiria o contrário) , apenas assisto eventualmente esse "programa" . Recebi as frases a seguir por um sempre útil e intelectualmente esclarecedor spam e , por isso, não me responsabilizo pela autenticidade do exposto abaixo.
>"Quando eu como chocolate, eu me sinto asiática", Solange, provocando azia em
quem ouviu.
>
>"Vamos de novo lá no furúnculo?", Solange, merecendo ser afogada no
ofurô.
>
>"Lagarto! Lagarto", Solange, durante uma festa mafiosa, tentando dizer "Ragazzo,
Ragazzo".
>
>"O que é mais pesado, um quilo de chumbo ou um quilo de algodão?", perguntou Dourado.
>"Lógico que é um quilo de chumbo", respondeu Solange
>
>"Deserto tem esse nome por que nunca chove?", Solange, para variar, cheia de
dúvidas.
>
>"Será que ele pensa, será que ele tem dente?", Solange, nossa campeã, querendo
entender mais sobre um passarinho que visitava os brothers.
>
>"Como essa cobra entrou aqui, voando?", Solange
>
>"Aaaatirei o pau no mato...", Solange, livrando o gato da canção infantil
>
>Solange olhando pra colher: Ih minha cara tá de cabeca pra baixo, que engraçado.
>Buba: É porque é um espelho, é por causa da curvatura, é côncavo...
Solange: Ah...(olhando pasma pra colher) cacâvo....
>Buba: Côncavo!
>Solange: E toda colher faz isso???
>Buba: Claro
>Solange: Que estranho...
>
>
>
>"África é um país, né?", Solange, numa asneira continental, enviada por vários
leitores.
>
>
>"Vou passar um água cigenada", Solange
>
>"As meninas aqui da casa podem ser TOC model", adivinha quem? Solange...
>
Bom, diferente do que se possa pensar, não é por nada disso que você acabou de ler que eu deveria odiar a Solange, participante da "sensacional" disputa pelo prêmio de meio milhão de reais.
O fenômeno "Sol do bbb4" a que me refiro como digno de ódio trata-se apenas de uma pequena parte desse grande Circo de Horrores ( no sentido literal da comparação) a que nos submetemos tão passivamente em frente a tv, mais uma vez.
O Big Brother não é somente uma invasão consentida, mas acaba por se tornar uma sátira irresponsável das nossa próprias "pobrezas" e "misérias" de espírito. É um palco cruel, com um público violento em todas as suas camadas e sem qualquer ponto seguro para se proteger. Mesmo que os gladiadores dessa arena aceitem suas regras em nome de um bem maior, o amado e santificado capital, acaba mesmo por ser uma verdadeira falta de humanidade o modo como alguns de nós apenas condenamos sem maiores escrúpulos os participantes do lamentável espetáculo.
É engraçado como nos esquecemos que qualquer um de nós poderia estar lá ( poucos provariam que não) e quase nem percebemos que essa especulação toda sobre a vida e os "terríveis defeitos" de "Cida-Sol-ou-Zulu" só é benéfica ao Ibope. A fofoca parece inerente ao ser social, mas quando esse "efeito de nos comunicarmos" torna-se um produto com valor de mercado, o "ruído aceitável e parcialmente controlável" das nossas relações perde os limites . Fica moralmente correto nos posicionarmos como leões famintos do erro alheio, já que eles mesmos entraram na roda, cientes do "jogo".
E quão fácil não é julgar a partir de preconceitos tão fortemente enraizados da nossa sociedade, não é?
A Sol do bbb4 é , como qualquer um de nós, apenas uma pessoa com ações e reações no mundo. Qualificar essa maneira de agir é que determina, muitas vezes, a nossa visão: a nossa imagem do outro. Será que o outro sempre caberá nesses estereótipos que montamos tão displicentemente? Será que nunca , em nenhum momento da vida, já não nos surpreendemos com pessoas que nos pareciam tão exatas, tão limitadas ao nosso entendimento ( ou nossa preguiça de olhar, nossa distração)e ficamos em desequilíbrio com a nova imagem?
Prever o outro em totalidade, me parece, tão absurdo quanto tentar prever a si próprio. Ou será que somos capazes de conhecer de antemão todas e quaisquer das nossas reações ao ambiente circundante?
O que critico, especificamente, no julgamento geral e inapelável contra a Solange do bbb4 é como todo o "ódio" por suas atitudes pessoais acabou se concentrando num preconceito. Não nos parece tão fácil e agradável demonstrar as incorreções gramaticais e a falta de certos conhecimentos gerais ( ou esseciais aos minimamente letrados) de uma pessoa para humilhá-la ?
Sim, fazemos isso para agradar ao ego. A maneira como reagimos ao posicionamento ofensivo da participante é simplesmente a procura de um "calcanhar de Aquiles" para atacá-la.
É dessa forma que muitos têm construídos suas críticas. E como conhecimento é poder , usamos esse fator de maneira a torná-lo um agente fortemente discriminatório na nossa sociedade. Rimos do "falar errado" dos caipiras da novela e nos deliciamos com as placas e escritos que apresentam erros gramaticais, espalhados pela cidade e usados em alguns programas de tv como exemplo de ignorância.
Mas, quantos de nós se revoltam contra a falta de um modelo escolar justo e competente para todo o país? Não quero aqui concluir que não usar a forma padrão do "bem falar", a norma culta, o chamado "português correto", equivale a "burrice". Principalmente, quero que não se associe educação escolar à incapacidade de aprender ( o tal mito da burrice inerente no qual tanto acreditamos na nossa época de escola).
A educação sucateada faz com que um pequeno grupo de pessoas tenham acesso ao conhecimento e o resultado disso é exatamente essa relação de poder e preconceito frente a quem não possui uma formação semelhante.
O uso de termos como "água cigenada" ou "toc model" é perfeitamente explicável, se avaliamos isso sem idéias prontas e pré-concebidas. Trata-se simplesmente de um conhecimento oral, baseado no uso do idioma falado, porém, sem maior acesso à forma escita. Se ouvirmos, por exemplo, pela primeira vez uma palavra de um idioma estrangeiro que conhecemos pouco, seria muito difícil conseguirmos escrevê-la ou mesmo pronunciá-la de maneira formal.
O exemplo é bem oportuno, pois mostra como a forma padrão do português escrito pode sim ser considerada um "idioma" dentro do idioma. Não uso aqui "idioma" no sentido científico, mas como metáfora mesmo.
Deveríamos, na verdade, ser poliglotas no nosso próprio idioma, já que a forma padrão possui um objetivo funcional e prático: perpetuar uma maneira comum de comunicação em um grupo. Porém, é preciso levar em consideração o fato das línguas não serem permanentes -ou ainda estaríamos falando latim!- e o fato também de que cada grupo de pessoas , reunidas por diversos fatores diferentes (região, idade, etc) compõe suas regras próprias (gírias, regionalismos, arcaísmos)de se expressar.
Ou seja, existem diversas formas de falar o Português, mas só uma escrita. Conhecer e usar essas diversas formas só pode ser benéfico, a medida em que compreendemos a grandeza do poder de expressão de idéias em suas múltiplas possibilidades.
O que é injusto é estar restrito a uma única possibilidade de expressão da língua. A forma escrita deveria ser um bem comum a todos (através da escola), assim como também a nossa própria maneira de falar merece respeito.
enviada por Sol
22/03/2004 23:45
Escrevi este texto já faz bem mais de um ano, quando eu ainda estava na Fatec... O achei num antigo arquivo de e-mail e até q achei q não era algo tão ruim assim... Eu já o postei aqui antes... Mas faz muito tempo! É um conto bonitinho, achei que valia a pena ser lido por quem não o conhece ainda ou até relido por quem já o viu.
Nas entrelinhas
< b />
Gisela rasgou aquele primeiro rascunho de divagações
inexatas e idéias soltas, puxou outra folha colorida de
seu caderno de Geografia e começou tudo de
novo. Como era difícil escrever um
currículo!
- Difícil? É um documento formal, já está tudo
definido por convenções, ora! É só seguir o modelo, ser
objetiva e pronto. Qual o problema?
- Pedro, às vezes, você é tão idiota! Será que não
deu pra perceber que é exatamente esse o problema? Eu
não consigo simplesmente seguir um modelo... E, se você
quer saber, detesto convenções e tô me lixando pras
formalidades. Droga! Como é que eu vou escrever algo
sobre mim sem ser profundamente subjetiva? Não dá, eu
não sei fazer isso.
- Por que você tem que tornar tudo sempre mais
complicado do que já é?
Gisela sorriu.
- Porque eu não sei ser simples... Você tem razão,
às vezes, eu exagero. Mas não dá pra ser de outro
jeito... Eu não quero ser de outro jeito, entende?
Pedro suspirou.
- Antes ter opinião demais do que não ter nenhuma!
Bem, vamos lá. Deixa que eu faço o currículo pra você.
Só me dê algumas informações, tá?
Pedro, pacientemente, digitou o currículo no
computador do irmão de Gisela ( afinal, documento não se
transcreve em uma folha cor de laranja!) , imprimiu-o e
se encarregou de levá-lo pra agência de seu tio ainda
aquela noite.
Os dois amigos haviam passado a tarde inteira
conversando e toda aquela atenção, compreensão e sincero
interesse de Pedro por seus eternos desastres amorosos e
confusões filosóficas deixaram Gisela um pouco
balançada. Tanto tempo sozinha, tantas lágrimas e cartas
nunca entregues, tantas noites frias e silenciosas,
tantas bebedeiras e longas conversas com as estrelas,
tantas loucas-paixões-platônicas-não-correspond ida e o
Pedro ali: tão amigo e tão possível!
Antes de sair do quarto, o rapaz colocou o documento
num envelope e, sem que Gisela percebesse, guardou
também os quatro pedaços de papel laranja rasgados e
amassados em que a garota transformara a primeira
tentativa de fazer o tal currículo. Estava curioso pra
saber o que ela teria escrito.
Ao levar Pedro até o portão Gisela sentiu algo
estranho, uma solidão inexplicável e uma vontade de
resolver todas as suas indagações emocionais com um
único gesto impulsivo:
- Pedro, eu não gosto de você tanto quanto você
merece. Eu não sei se algum dia vou gostar, mas te acho
tão inteligente, tão divertido, tão atencioso, sinto um
carinho e uma admiração tão grande por você que eu
sinceramente queria tentar pra ver se de repente dá
certo. Só que eu não garanto nada, você sabe que ainda
amo o fulano de tal e que eu não posso te prometer
esquecê-lo, não vou conseguir disfarçar o que sinto por
ele e eu quero mesmo ser bem sincera com você, aliás,
já aviso que não vou querer que ninguém saiba da gente,
não vou andar de mãos dadas com você e não vou ser do
tipo "prendada" que faz bolos e sei lá mais o que só pra
te agradar e não vou mudar meu comportamento com meus
amigos e , na verdade, gostaria que a gente tivesse uma
relação quase que de amigos mesmo, mas a gente pode se
beijar, escondido claro, e também não sei se algum dia
vou me apaixonar por você, mas isso eu já te disse, e...
bom... quer namorar comigo?
Pedro sorriu. Um riso que não era cínico, nem irônico
ou sarcástico e muito menos triste ou alegre... era
apenas seu típico semblante maduro de sempre.
- Não.
Atravessou o portão e foi embora, mas não desejou em
momento algum se desfazer das folhas de papel
alaranjadas. A ruiva garota ficou olhando, perplexa.
Gisela não sabia o que queria.
Pedro sim.
enviada por Sol
22/03/2004 07:26
quem sou...
Poeta Morta
poeta ainda desencantada
escondida
da vida
metida com
suas
saídas
desencontradas
suaves
sonhos
orvalho de ontem
poeta só de madrugada
poeta endurecida
ternura
perdida
Futura Poeta Esquecida
sem crenças desenfreadas
apenas folhas (de papel) orvalhadas
sem calor do dia, sem sol luz céu
"inesperança" do que vem
"nãoaceitança" do que tem
"poucaimportança" gramatical
poeta menina,
mulher
coisa...
do medo corre o desejo de ter tudo
do homem nasce o medo, o desejo e o mundo
do desprezo nasce a poeta morta
e dela ...
VIVA a poesia de quem rima pesadelos!
como estou...
Antes Antidepressivos Orais
Tanto sonho, tanto medo
é a poeta morta encanto
é um suspiro doce cedo
é apenas lamento
Desencanto novo - de novo!-
outrora engano ledo,
de todo extinto fogo
verdadeiro,
de todas as mãos
suadas
frias,
de toda a vida
e de cada dedo
Pranto rouco
(...Pouco.
Fosco.
Tosco.
Oco... oco...)
a cada dia, cada aurora
novamente . . .
Tristemente.
Em vão,
tantos sonhos e tantos medos.
-----------
o resto é vida...
enviada por Sol
17/03/2004 22:25
Bom, como este não é um blog convencional, daqueles " diário de bordo" com todos os chororôs, chiliques, fofoquinhas e comentários ácido-pseudo-filosóficos sobre qualquer porcaria da vida comum...
o jeito que sobrou de saber como eu tô é este aqui em baixo. Tá, eu sei que o i*Eu pode ser considerado uma "modinha cibernética simplificadora , rotuladora e sem conteúdo crítico"... Mas, ora, eu tenho um blog! O que é um blog senão essa mesma descrição?
enviada por Sol
15/03/2004 11:45
Entre uns post-coisas incompreensíveis até pra mim e palavras supremas de significado não-minhas (renato e pessoa até demais, ultimamente...), tem um texto. Um texto original, muito mal escrito por sinal, mas é novo.... a espera de comentários.... "Edifício Tebas", lá embaixo.
"Legio" é outro projeto... qdo conseguir escanear aquelas porcarias pseudo-HQs eu talvez coloque uma prévia aqui tb...
Uma história de anjos, demônios, céticos e gente que vc conhece, talvez até vc mesmo esteja por lá!
Aguardem... (mas não com muita ansiedade, pois eu posso mudar de projeto pela milésima vez... sem ter terminado, como sempre, o anterior!)
enviada por Sol
15/03/2004 10:54
1° De Julho
Eu vejo que aprendi o quanto te ensinei
E é nos teus braços que ele vai saber
Não há porque voltar
Não penso em te seguir
Não quero mais a tua insensatez
O que fazes sem pensar aprendeste do olhar
E das palavras que guardei pra ti
Não penso em me vingar
Não sou assim
A tua insegurança era por mim
Não basta o compromisso
Vale mais o coração
Já que não me entendes,
Não me julgues, não me tentes
O que sabes fazer agora
Veio tudo de nossas horas
Eu não minto, eu não sou assim
Ninguém sabia e ninguém viu
Que eu estava a teu lado então
Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e milha filha,
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha
E não de quem quiser
Sou Deus, tua Deusa, meu amor
Alguma coisa aconteceu
Do ventre nasce um novo coração
Baby, baby, baby, baby
O que fazes por sonhar
É o mundo que virá pra ti e para mim
Vamos descobrir o mundo juntos, baby
Quero aprender com teu pequeno grande coração
Meu amor, meu amor
Baby
mais tempestade...
midis
enviada por Sol
15/03/2004 09:55
Leila
Estou pensando em você
Quero lhe ver
Mas nesse horário você deve estar
Pegando os filhotes no colégio
Depois chegar em casa
Ver o resto de tudo
E quando vem o silêncio
Fumar unzinho e fumar Coltrane
Não faço mais isso mas entendo muito bem
Adoro os teus cabelos
Adoro a tua voz
Adoro teu estilo
Adoro tua paz de espírito
O encanador te deixou na mão
Tem reunião do condomínio
O telefone não dá linha
E o chuveiro tá dando choque
Tem uma barata voadora
No quarto das crianças
E os monstrinhos estão gritando alucinados
Pra eles tudo é diversão
Mas você sabe o que é ter pavor
Pavor pavor de baratas voadoras
E você diz daquele seu jeito:
- Ai, preciso de um homem
E eu digo: - Ah, Leila! Eu também
E a gente ri
Você monta suas fotos para exposição
Promete trabalhar mais com o computador
E terminar seu vídeo até setembro
Ter que pegar o carro no conserto
Ver a conta do banco, cartão, IPTU
Sábado vai ter peixada na Analú
E domingo, cachorro-quente
Com as crianças na Fernanda
Adoro teu olhar
Adoro tua força
E adoro dizer seu nome: Leila
Às vezes as coisas são difíceis, minha amiga
Mas você sabe enfrentar a beleza dessa vida
Adoro dizer seu nome: Leila, Leila, Leila
A Via Láctea
Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Mas não me diga isso
Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela parecerá uma lágrima
Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir sempre estar bem
Ver a leveza das coisas com humor
Mas não me diga isso
É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa
Amanhã é um outro dia não é
Eu nem sei porque me sinto assim
Vem de repente, um anjo triste perto de mim
E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado por pensar em mim
Quando tudo está perdido Sempre existe uma luz
Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido
Não quero mais ser quem eu sou
Não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado por pensar em mim
E , abaixo, só mais uma.
não é tempestade, mas é que é bonita... realmente bonita.
acrilic on canvas
- É saudade então. E mais uma vez
De você fiz o desenho mais perfeito que se fez:
Os traços copiei do que não aconteceu.
As cores que escolhi, entre as tintas que inventei,
Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos
De um dia sermos três.
Trabalhei você em luz e sombra.
Era sempre: - Não foi por mal.
Eu juro que nunca
Quis deixar você tão triste.
Sempre as mesmas desculpas
E desculpas nem sempre são sinceras
- Quase nunca são.
Preparei a minha tela
Com pedacos de lençóis
Que não chegamos a sujar.
A armação fiz com madeira
Da janela do teu quarto.
Do portão da sua casa
Fiz paleta e cavalete
E com as lágrimas que não brincaram com você
Destilei óleo de linhaça
E da sua cama arranquei pedaços
Que talhei em estiletes
De tamanhos diferentes
E fiz então
Pincéis com seus cabelos.
Fiz carvão do batom que roubei de você
E com ele marquei dois pontos de fuga
E rabisquei meu horizonte.
Era sempre: - Não foi por mal.
Eu juro que não foi por mal.
Eu não queria machucar você:
prometo que isso nunca vai
Acontecer mais uma vez.
E era sempre, sempre o mesmo novamente
- A mesma traição.
Ás vezes é difícil esquecer:
- Sinto muito, ela não mora mais aqui.
Mas então porque eu finjo que acredito no que invento?
Nada disso aconteceu assim - não foi desse jeito.
Ninguém sofreu: é só você que provoca essa saudade vazia
Tentando pintar essas flores com o nome
De "amor-perfeito" e "não-te-esqueças-de-mim".
enviada por Sol
15/03/2004 09:54
enviada por Sol
09/03/2004 22:40
"Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
(Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fosseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!"
Alvaro de Campos
não... naum apenas que freddie seja loiro ou belo, mas é q a beleza ou loirice de freddie é a q vale. só. simples. a q se sente por si só...
mary tb é infeliz... mas sabe q vai passar, como a "parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!"
naum, naum mesmo... naum que mary, desta vez, tenha sido alternativa pras desculpas q o mundo exige e dúvidas falsas q vez ou outra insistem (insistimos) em naum resolver...
desta vez.... mary apenas pra ler algo qualquer e pra entender junto "em dias tristes como sentir-se viver"
Engraçado é que acertei e , ao mesmo tempo, me enganei vertiginosamente na predição do futuro...
naum, naum mesmo... naum que mary, desta vez, tenha sido alternativa pras desculpas q o mundo exige e dúvidas falsas q vez ou outra insistem (insistimos) em naum resolver...
mary foi desculpa/alternativa de novo sim...
enviada por Sol
09/03/2004 17:00
Tom, ousadia é a chave.... É o botão vermelho proibido q detona a atômica bomba acionada no núcleo de cada indivíduo qualquer.
E a bomba é o movimento, a desistência da inércia, o nosso agir no mundo, a necessidade violenta de mudar...
Ah, Fejão!!! Se destrói ao redor sem melhorar o mundo? Se não resolve nem põe fim à guerra? Se não impede a dor nem garante o triunfo?
Mas muda, não muda? Só em mim?
Que seja!
Antes a explosão... do que o esquadrão de fuzilamento me cercando na parede, sem cigarro nem lenço ou último desejo...
Mas sem tiros também! Apenas um apontar eterno de armas à minha cabeça, até segunda ordem... À espera do que algum supremo comandante decidir.
Não! Eu detono a minha própria bomba e sofro as conseqüências!
Eu quero! Quero mesmo a explosão!
Se feri? Se machuquei? Se querem vingança?
Então hajam, façam alguma coisa!
Atirem logo na minha cabeça e explodam com os meus miolos de uma única e extasiante vez!!!
enviada por Sol
03/03/2004 17:12
Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente"
mais um trecho do alvaro de campos...
A leitura de cada um é cheia das suas próprias emoções e na minha o que há sou eu. Esse trecho aí em cima diz-me de um grito e de um viver intenso... e passageiro. Num explodir... E, como toda explosão, numa incontinuidade constante. O que explode é um momento, único. Depois são marcas, caos, som e fúria... ou apenas o nada.
Eu quero a explosão !
enviada por Sol
27/02/2004 18:55
Edifício Tebas
Capítulo 1 - Prólogo e Óbvio.
- Eu não acredito... Onze e meia! Por que você me deixou dormir até agora, Lion?
- Quer um motivo? Bem, você hoje não parece nenhum pouco mal-humorada como nos outros dias em que acorda às 08:00 da madrugada e... - o jovem pula sobre a cama - não me encontra aqui do seu lado para dar esses sermões, sabia?
Jô alonga alonga todo o seu leve corpo num movimento preguiçoso e quase rítmico de braços e pernas, depois debruça-se vagarosamente sobre o peito de Lion e pergunta com certa candura:
- Você pensa que a maior diversão da minha vida é infernizar a sua, não é?
- Não... Pelo menos, a maior não...
- Não? Humm... Então...
- Hum, hum... Vem cá... – sussurra o rapaz por entre os longos cabelos negros de Joana.
(elegantes ternos cinzas e eternos cinzas...)
Capítulo 2 - O Reino.
O dia nublado e frio dava algum peso extra àquela paisagem urbana tão constante na solidez dos prédios, no correr sem parar dos animados seres por entre todos os caminhos, nas silenciosas pichações e sujidades de sempre. Era como se a recusa do sol nesse verão de carnaval acentuasse ainda mais o imutável reinado dos cinzas eternos e cimentados do lugar. Concreto desde a alma.
E nada disso significa por si só, já que uma fortaleza de ruas como São Paulo também carrega tantas escolhas e movimento em menos de segundos de existência que seria impossível resumir essa simples sensação de um só ponto de vista. Definições são grandes perdas de tempo!
Naquela cidade construída de lugares-comuns e multiplicidades, Joana perdia o olhar por pequenos universos efêmeros criados a cada instante, em qualquer espaço. Talvez porque já acostumada ao recorte necessariamente delimitado de realidade que sua câmera exige, talvez por técnica, talvez mera sensibilidade ou ainda alguma procura essencial por novidade em meio ao repetido trajeto diário para o trabalho.
Pensava e jamais concluía... voltando toda sua atenção, num repente, para três andarilhos debaixo do viaduto.Esses que, para outros, parte comum e integrada da paisagem. E não para poucos, sinal de alerta seguido de instintiva reação em direção aos abertos vidros do carro. Para a fotógrafa... imagem.
Joana notou apenas que os dois menos esfarrapados riam do terceiro que se agarrava a um enorme tecido estampado com brasões de time de futebol. O provável tricolor envolvido na bandeira parecia sofrer menos de obsessão esportiva do que do friorento bafo daquele começo de dia e, sendo assim, levava vantagem sobre os companheiros. Talvez isso explicasse a sua cara nenhum pouco aborrecida, apesar da derrota daquele time na noite anterior. Ou estivessem todos bêbados... ou então felizes, apenas. Por que não?
O semáforo abriu e Joana, acelerando seu fusca, nunca mais pensou nas tantas possibilidades daquela cena. Mas lamentou ter esquecido sua câmera na redação da revista, semana passada... Teria dado uma ótima matéria esportiva!
...
Dia de trabalho comum...
...
No fim da tarde, a repórter fotográfica teve que passar pelo ateliê do jovem artista plástico Aristo da Silva Teles... Ela tinha muito trabalho acumulado para fazer em casa, galerias para visitar, negativos, revelador, banho de paragem, fixador, fotogramas pendurados no banheiro... Mas era possível atrasar isso tudo mais um pouco. Deixar de falar com o Ari ainda hoje não!
- “Gosto muito de te ver, leãozinho. Caminhando sob o sol...”
- Não é o que você está pensando, Ari!
- Não, é claro que não. Você com certeza não está mais bonita, mais leve, mais bem humorada hoje só por causa de um certo felino maravilhoso, gostoso, atlético, milionário, de incríveis olhos azuis...
- A gente se encontrou, mas...
- Se encontraram...
- Sim, mas não...
- Se encontraram... se enroscaram e...
- Eu não quero falar disso.
- Disso? Disso o quê?
- Disso. Ora, isso... quer dizer, aquilo...
- Ah!!! - apontando o dedo acusativamente e às gargalhadas para a cara de Joana - Eu sabia, eu sabia! Você perdeu a aposta! Foi só o Lion voltar que você foi correndo abanar o seu rabinho pra ele!
- Errado! Eu não fui atrás de ninguém. O Lion me procurou... no meu apartamento!
- Hum, hã… Então foi lá que você perdeu a sua...
- A minha??? Como assim “a minha” ?
- A aposta, sua boba! O que mais podia ser? Tudo bem, você está se fazendo de desentendida. Mas, pode deixar que eu vou refrescar a sua memória. Bom, deixa eu lembrar, a dois meses e uma, não, duas semanas atrás você fez a seguinte promessa a todos os santos, em alto e bom som, aqui mesmo, neste ateliê : “Eu, Joana Castilha, nunca mais vou dar...
- Ari!
- Que foi? Não grita assim comigo, não! Foi exatamente assim que você falou: “...nunca mais vou dar nenhuma atenção pros problemas do Lion...”
- Ah, é. Eu disse isso.
- “ ... e nem transar com ele, de nenhum jeito!”
- Tá, eu já lembrei! Não precisa repetir tudo o que eu disse.
- Então lembrou também o que foi que a gente apostou, não é?
- Ah, não!
- Ah, sim!
- O meu CD do Caetano, não!
- “E agora? O que faço eu da vida sem você?”
- Peraí, peraí. Olha, eu te dou aquele outro CD, aquele que tem “Sozinho” remixado . Você vai adorar, Ari... eu tenho certeza! Afinal, você gosta tanto do Caetano cantando essa música...
- Não mesmo! Eu já ouvi essa versão remix e detestei. Não tem conversa! Além do mais, eu sempre soube o que eu queria: você tinha acabado de comprar o novo CD do Caetano quando a gente apostou, eu lembro muito bem daquela tarde... Contei cada minuto, pensei que seria o CD mais fácil que eu ia ganhar na vida. Mas aí o Lion viajou e estragou tudo! Eu já estava quase desistindo dele, sabia? Na verdade, eu tinha acabado de me decidir, sexta-feira passada, a comprar o meu Caetano quando o Lion apareceu aqui no ateliê e aí... eu vi o sinal! diz o escultor, apontando algo no teto... dramaticamente, e olhando para o infinito.
- Sinal? Espera aí, sexta-feira? O que o Lion veio fazer aqui na sexta?
- Não. Não, não, não! Olha, Jô, quando eu falei de sinal era só uma metáfora, um modo de dizer... Não tem nada a ver com aquele sinalzinho dele que você me disse... Eu não vi nada, eu não fiz nada! Eu juro! Acredite em mim!
- Aristo, calma! Tudo bem, eu já entendi. Agora esquece isso e me fala,tranqüilamente, numa boa: o que o Lion veio fazer aqui na sexta... se ele me falou que voltou para São Paulo no domingo?
- “Uau.” - ironicamente. Por que será que eu não me surpreendo com isso? Vamos rebobinar o filme. Primeira parte: Jô e Lion brigam; Jô faz uma aposta comigo, Lion viaja, eu assisto ao show do Caetano sozinho... sempre sozinho... Segunda parte: Lion volta, Jô e Lion transam; eu ganho a aposta ; Lion conta uma mentira e Jô... acredita. O que tem de errado nessa história?
- Eu fui no show do Caetano com você.
- Negativo! Sem ofensas, minha querida, mas uma amiga não é bem a companhia que eu estava falando ( ainda se fosse um amigo). Bem, mas isso não importa. Olha, o problema dessa história é que o final dela é previsível. Sempre acaba do mesmo jeito e o pior de tudo é que não convence. Jô, pensa comigo: é aceitável que vocês dois briguem, as pessoas são diferentes, as pessoas brigam. É a lei do mais forte. Sobrevivência! É aceitável que se separem, que você faça uma promessa absurda que obviamente não vai dar conseguir cumprir. É aceitável até que eu vá a alguns shows só pra me divertir com uma amiga e curtir as músicas que eu adoro. Vocês transarem, veja bem, é um fato que você pode até achar estranho... mas, na verdade, é completamente natural e explica-se por si só: se acontece é porque acontece, simples! O que mais? Ah, claro! Você acha que o fato de o Lion inventar mentiras não é algo aceitável, né? Pó, as pessoas mentem! Eu minto, você mente, o papa mente, todos os jornalistas mentem... Até o seu cabeleireiro mente, meu amor!
- Ai, Ari... Não deixe essa situação ainda mais deprimente. Eu sei que o meu cabelo está horrível hoje...
- Assim como você também sabe que o Lion adora criar uma histórias, digamos, bem ficcionais... E, ainda assim, você se surpreende com o final. Jô, minha amiga, quanta inocência! Isso não combina com você, o seu papel nessa história é muito mais divertido e muito mais forte do que isso. Você é quem manda nas regras do jogo. Olha, sua personagem ficaria bem mais atraente se você bancasse a dona da situação, aquela mulher cínica e posuda, cheia de segurança, sabe?
- Por que é que a minha vida sempre acaba se parecendo com uma comédia romântica nonsense toda vez que eu converso com você, hein, Ari?
- Ah, é porque...
-Não, não responda. Era uma pergunta retórica... Não importa a resposta, existem várias respostas, qualquer uma serve... E, se você quer saber, agora eu apenas tô preferindo a minha própria versão da verdade. Sei lá! É uma coisa engraçada... Quando a minha mãe fala dos meus problemas, ela me transforma na pior vilã da novela das 8. Já quando é meu pai que fala eu me torno simplesmente a princesinha do último desenho da Disney. Meu pai é meio doido, eu acho. Quando estou sozinha... minha vida é um filme mudo, cheio de imagens... ou um musical, depende do meu humor. Mas quando estou com o Lion eu não sei... Ele me desestabiliza, me assusta, me deixa em alerta o tempo todo, me provoca, me instiga... O Lion é meu livro de cabeceira da Agatha Christie... Mas eu nunca li a Agatha Christie! Entende?
- Não.
- Nem eu.
- Mas eu gostei da metáfora, acho que devíamos escrever nossas memórias... Quando formos super famosas vão nos pagar milhões por essas besteiras que a gente fala.
Silêncio de 30 segundos, enquanto os dois amigos olham quase poeticamente para o teto, com os queixos entre as mãos, pensando em moscas. E o quase patético da nossa cena precisa terminar de algum jeito, afinal há muitas horas para passar até o fim do dia e Jô ainda nem revelou seus últimos filmes para a revista desse mês.
- Eu tenho que ir pra casa, estou muito atrasada com as fotos da exposição do Picasso na Oca e..
- E você tem que buscar o meu Caetano também.
Jô fez apenas um sinal afirmativo com a cabeça, não muito empolgado. Algo normal para quem acabava de perder menos do que um realmente ótimo CD, porém, mais do que pudesse compreender direito. O problema não era a aposta, não era a mentira... Nem Joana saberia explicar sem parecer banal. Ela tinha perdido uma chance de ficar quieta. Sim, deveria ter ficado muda, parada, imóvel... Ou melhor, precisava mesmo ter ido logo embora, ter ficado longe de algo que não deveria mais importar tanto. Entretanto...
- Quando eu te trouxer o CD você me conta o que o Lion veio fazer aqui na sexta?
- Combinado. Hoje, às 10, lá em casa?
- Às 10!
... ela perdeu.
...
Caminho de casa, um fusca... tentava não pensar. A luz do entardecer a embebedava de um rosa púrpura incomum , mesmo que por entre as imensas "colunas" residencias, saindo de algum horizonte impossível numa cidade de tantos pontos nos seus muitos "eixos y" espalhados, construídos ao vento.
Para um começo de terça de carnaval cinzento, parecia que aquele espetáculo de cores vinha simples, seguindo a não-significância da natureza, como uma ameaça irônica ao reinado. Quem sabe, uma quarta-feira de sol e alaranjados raios?
....
(to be continued)
enviada por Sol
16/02/2004 12:52
Não sou nada, mas se fosse algo seria Tabacaria... seria este poema do fim ao começo.
Sol...
TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928
enviada por Sol
16/02/2004 10:29
O Pessoa é o Pessoa... dispensa comentários!
p.s.: mas se quiser, pode comentar sim!

A pálida luz da manhã de Inverno
FERNANDO PESSOA
(28-12-1928)
A pálida luz da manhã de Inverno,
O cais e a razão
Não dão mais esperança, nem uma esperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.
No rumor do cais, no bulício do rio
Na rua a acordar
Não há mais sossego, nem um vazio sequer,
Para o meu esperar.
O que tem que não ser
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.
enviada por Sol
09/02/2004 19:26
"Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fosseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!"
Alvaro de Campos
não... naum apenas que freddie seja loiro ou belo, mas é q a beleza ou loirice de freddie é a q vale. só. simples. a q se sente por si só...
naum, naum mesmo... naum que mary, desta vez, tenha sido alternativa pras desculpas q o mundo exige e dúvidas falsas q vez ou outra insistem (insistimos) em naum resolver...
desta vez.... mary apenas pra ler algo qualquer e pra entender junto "em dias tristes como sentir-se viver"
mary tb é infeliz... mas sabe q vai passar, como a "parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!"
enviada por Sol
09/02/2004 18:57
Antes Antidepressivos Orais
Tanto sonho, tanto medo
é a poeta morta encanto
é um suspiro doce cedo
é apenas lamento
Desencanto novo - de novo!-
outrora engano ledo,
de todo extinto fogo
verdadeiro,
de todas as mãos
suadas
frias,
de toda a vida
e de cada dedo
Pranto rouco
(...Pouco.
Fosco.
Tosco.
Oco... oco...)
a cada dia, cada aurora
novamente . . .
Tristemente.
Em vão,
tantos sonhos e tantos medos.
enviada por Sol
09/02/2004 18:55
trechos do imenso poema PASSAGEM DAS HORAS, Alvaro de Campos
"Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz. "
"Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida."
"Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser. "
enviada por Sol
26/01/2004 22:08
Velhos e infantis poemas ruins q achei no meu baú e que guardo por simples valor afetivo e que mostro aqui por mero valor biográfico e blogcêntrico...
(fizeram-me, fiz-me deles, foram-se para que hoje eu seja; ora, veja!)
poemas da Sol Oliveira :
Ninguém lê poemas
Em livros de escola
Descobre-se o Drummond, o Pessoa
Reconhece-se o Vinícius, a Cecília
Lê-se e trelê-se o Camões
Decora-se todos!
Esquece-se a maioria...
Longe da escola
Compra-se livros (ainda que poucos)
Vai-se à biblioteca (alguém se anima?)
Assina-se o jornal (só alguns muitos)
Procura-se histórias
Esquece-se a rima
Longe da obrigação da escola
Viaja-se só pela tv
Navega-se na tecnologia
Vende-se auto-ajuda
Escreve-se notícias
Esquece a poesia
Longe da prova, do teste, da nota
Ninguém lê poemas
Ninguém torna-se poeta
Ninguém se atualiza
Ninguém se identifica
Ninguém se importa!
maio 99
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Submissão X Subversão
Quanto dura um império?
Em quanto tempo
acaba uma paixão?
Quanto cabe em um baú?
Quanto ama um coração?
Enquanto houver medo
- é a resposta do primeiro.
Depende do que está submerso
- se é verdadeiro ou o seu inverso.
Depende do quanto e do dinheiro
... E o resto é só um verso.
Nós somos apenas um mundo ( e o que é pior, o terceiro!)
Eles são o Universo! Apenas.
Por quanto se mata?
- é a pergunta que nos fazemos
Por tanto e por tão pouco
(assim respondemos),
porquanto somos humanos
e, portanto, pequenos.
Entretanto (e no meio disto)
há que se tentar!
Não por nada...
só por nós mesmos.
Sobrevivemos,
afinal...
E no final nos mataremos!
pelo preço de um desejo,
não por menos.
Mas
E quanto ama um coração?
Calculável?
É provável que não.
E importa menos a cada tanto de um baú.
Então
Calemos os poetas,
principalmente os que já morreram!
Deixemos cegos os espelhos
Matemos nossos rebeldes
e todos os que não se conformarem
Afinal, pra Eles...
Somos todos surdos-mudos-evoluídos,
escravos do consumo,
subterceiromundoendividados,
colonoglobalizados,
seres ainda não desenvolvidos...
e terroristas em potencial!
sem data
provavelmente final de 2001
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Pode mãe? (poema da borboleta)
Pode um sapato
pisar uma borboleta?
Pode um sorriso
piscar bolinha de gude?
Pode um medo
pular uma escada bem grande?
passar um sonho a um susto pesadelo?
e parar um tudo pelo avesso?
Pode gramático gramar?
Com grama?
Pode regrado desregrar?
Sem drama?
Sem regra? Nem fama?
Pode um sapato
pisar uma borboleta?
Pode não...
que ela voa
E se voa bem alto
Vê que pode e caçoa!
E como mundinho aqui de baixo é pequeno!
1999
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Uma breve e amadora incursão concretista...
Etimologia
TODO DIA
TODO DIA
TODO DIA
TODO DIA
TODO DIA
TODO DIA
TODO DIA
TODO DIA
TODO DIA
TODO DIA
TODO DIA
TODO DIA
TODODIA
TODODIA
TODODIA
TODODIA
TODDIA
TODDIA
TODIA
TEDIA
TÉDIO
março 98
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enviada por Sol
26/01/2004 21:53
AVISO: PERIGO, NÃO SE APROXIME! Riscos sérios de crise diabética por excesso de açúcares ou náuseas e enjôos devido à exposição explícita a casos inúmeros e insólitos de graves contusões de cotovelo. AVISO!!! AVISO!!!!
poemas românticos da adolescência...
Um Indivíduo
Certo
Indivíduo
Individualista,
Incoerente,
Indivisível,
Dividiu-se
quando pôs a vista
sobre o sublime,
o inatingível
Tal
Indivíduo
Indeterminado,
Incrédulo,
Individual,
Divinizou
um ser ignorado,
antes repelido,
agora aclamado.
De repente,
incompreensivelmente,
um ser sensual.
Repentinamente,
paradoxalmente
um seu ideal.
O
Indivíduo
Indiferente,
Incompassível,
Inditoso,
Dissuadiu-se
e, se nem mais pensar,
decidiu se entregar
ao sonho formoso,
ao corpo ardente,
ao paladar saboroso
de um amor inconcludente!
Mas
Este
Indivíduo
Indolente,
Indiligente,
Incompetente,
Distraiu-se
na arte de amar.
não soube, negligente,
tão somente compatilhar
da felicidade inexperiente
que mal acabara
de degustar.
Foi assim que, sem sentido,
Aquele Indivíduo de tantos defeitos
Meio perdido, meio sem jeito
Aquele Indivíduo (agora esquecido)
Aquele Indivíduo (que um dia já foi alguém)
tornou-se apenas
Um Indivíduo...
Nada mais além.
1998
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PoeMINHA
O sol o amor inicia
À noite a dor adormece
Logo a gente se esquece
e novamente já é dia!
sem data
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Jovem Demais
Se eu disser que vou pular
Tudo bem, não fique assim
Se eu disser que vou só molhar os pés
Tudo bem, acredite em mim
E se eu não disser
É que está tudo bem
É que só quis ficar aqui
Se eu disser que vou dormir
Apenas acredite, não tente entender
Se eu disser que já passou a minha vez
Apenas acredite, eu disse só por dizer
E se eu não disser
É que está tudo bem
É que só quis olhar você
Se eu disser que não sou deste lugar
Tem razão, alguém já disse
Se eu disser que agora quero paz
Tem razão, parece ser algo triste
E se eu não disser
É que está tudo bem
É que só quis que alguém risse
E se eu disser: te amo...
Pare, me mande calar a boca!
Mas se eu disser de novo
Pare, me escute um pouco
É que não está tudo bem
É que ontem eu quis morrer
Só pra chamar a atenção dos outros...
julho 2000
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Antes Antidepressivos Orais
Tanto sonho, tanto medo
é a poeta morta encanto
é um suspiro doce cedo
é apenas lamento
Desencanto novo - de novo!-
outrora engano ledo,
de todo extinto fogo
verdadeiro,
de todas as mãos
suadas
frias,
de toda a vida
e de cada dedo
Pranto rouco
(...Pouco.
Fosco.
Tosco.
Oco... oco...)
a cada dia, cada aurora
novamente . . .
Tristemente.
Em vão,
tantos sonhos e tantos medos.
2001
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CADENTE (em contrução)
Você
A luz que todo mundo tem
Um dia descobriu
Uma noite clareou...
Sua estrela, sua ... apenas sua
A luz que a todos deslumbrou
Você
Apenas sua verdade
seu sonho sinceridade
talento... NÃO!
Tá rápido! (brincadeirinha)
sua alegria olhos claridade
Você
Palavra riso versos
Poucos viam, poucos bastavam
Palavras versus riso
O equilíbrio perdido e perfeito
com que muito (poucos) se encantavam.
Você
Luz própria, corpo celeste
astro radioso de si mesmo
Matéria... apenas matéria, poeira
E de luz verdadeira se cansou
Sua própria luz o cegou.
Você, você, apenas você...
Nada mais!
alguém, talvez... mas você
Sempre você acima de...
Nada, o resto é nada além do que...
Seu mundo é você!
E giram todos
a sua procura,
a sua volta
Muitos, agora, muitos...
sim, é loucura!
os outros lá fora
e você no centro,
lá dentro,
a girar,
a brilhar,
a ofuscar,
a estrelar, clarear, clarear...
até cansar as vistas!
Cego... seu ego...
agora ilumina todo lugar.
Mas que importa?
Falso lume de holofotes,
opaca luz de postes.
E daí se ninguém mais vê o luar?
E daí?
Olhos pra que?
Você está cego de você!
2001
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Poeta Morta
poeta ainda desencantada
escondida
da vida
metida com
suas
saídas
desencontradas
suaves
sonhos
orvalho de ontem
poeta só de madrugada
poeta endurecida
ternura
perdida
Futura Poeta Esquecida
sem crenças desenfreadas
apenas folhas (de papel) orvalhadas
sem calor do dia, sem sol luz céu
"inesperança" do que vem
"nãoaceitança" do que tem
"poucaimportança" gramatical
poeta menina,
mulher
coisa...
do medo corre o desejo de ter tudo
do homem nasce o medo, o desejo e o mundo
do desprezo nasce a poeta morta
e dela ...
VIVA a poesia de quem rima pesadelos!
2002
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enviada por Sol
03/01/2004 20:03
eu... espero a chuva cair...
... enquanto durmo, enquanto durmo
(triste, né?)
saudade, galera!
enviada por Sol
18/12/2003 20:23
esperança é uma angústia otimista!
>>>>>>>>> >
como dói essa angústia e tanto sufoca o peito...
e como precisamos dessa dor q nos impede de desistir...
>>>>>>>>> >
acho tb q esperança é algum mecanismo evolutivo de preservação da espécie...
>>>>>>>>>
quem tem esperança nunca espera...
>>>>>>>>
contraditório, não?
mas ter esperança não é o ato de esperar... é, se vc imaginar bem, um próprio ato em si... qualquer ato... o esperançoso sempre age!
>>>>>>>>> >>>>>>>>>> >>
todo ato é esperança...
até o suicida que, afinal, agiu é um esperançoso...
>>>>>>>>> >>>>>>>
Ele não esperou... mas agiu com a esperança agarrada ao pescoço de q encontrava ali, assim, a sua, alguma, aquela... enfim, a solução !
enviada por Sol
14/12/2003 22:32
até o ano q vem!
bjos!
poesia vive... viva!
enviada por Sol
03/12/2003 15:00
meus antigos poemas.... espero que logo venham os novos! Bjos!
Inefável (como água enferrujada )
Impossível entender
Ela não sabia,
nunca soube
nem o quis
"é inútil falar de sentimentos"
Perguntei sobre o dia,
ela arrancou do
peito o
coração
Mostrou-o a mim
ensangüentado,
mal pulsando entre as
mãos e dedos,
rubro e arrítmico como os
repentinos olhos fixos
E sorria entre grossas gotas
escorrendo
quase já coaguladas,
cheirando a encanamento antigo,
como água enferrujada,
por toda a extensão do
fino e branco braço tremido
Vomitei,
repugnado diante da extravagância da cena.
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Poder...
Verbo substantivado,
canonizado
endeusado
maldito
dito
apenas dito
falado
e
escrito
o que há em poder
senão a ausência de proibir
e de não tentar
ou de... ?
o que é poder?
e O Poder (entidade maior)
que será?
de que adianta a etimologia
senão a levar a outras palavras sem nome?
a outros corpos sem alma/razão?
a outro significar incompleto?
e de que adianta perguntar?
Deus disse (nalgum dianoitado)
e tivesse se calado evitaria tanta guerra
Se uma palavra leva a outra
que dizer de um ditador
além do poder de ditar/dizer/palavrear?
E poder de palavra? Que pleonasmo maior?
se poder é só de palavra, não existe fora dela
deus diz
e a palavra cria, aí está o que chamas poder
não Nele, mas NELA!
Não houvesse palavras e não haveria poder
não me podes negar
pois negas com elas
nem eu te posso afirmar isto e aquilo,
ora... Pois que há palavras pra poder e pra não poder!
Aí que está o limite da ciência:
pretender-se absoluta quando palavra alguma a é
Aí que está a guerra:
desistir das palavras e olhar pra si
Aí que está a poesia , enfim.
esconder/mostrar que toda palavra já vem com defeito de fábrica
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DESEJOS (ou querências)
Preciso comprar um livro
Preciso assistir um filme
(e não a um)
Preciso trabalhar
Não preciso ler
Não preciso saber o enredo
(menos ainda a regra dessa frase)
Não preciso...
................... Entender a linha de montagem não
É preciso.
É preciso comprar
É preciso pagar o ingresso
É preciso ganhar dinheiro
( e falar direito)
É preciso não errar.
Não
R!
Não
é negação, apenas.
mas Não/ É necessário
Não quero ser preciso
nem correto
nem precisar
Eu quero um livro
( e não há qualquer um)
qual? Um.
quer? Quero um
E eu quero um filme também
( e não há nenhum)
nem? Quero
um? Qualquer não, quero um!
Que me façam
Viva!
Viva para quem não precisa!
de vida
de viva
Quero um filme e um livro
por que não me façam
de mão e de braço
e de máquina
pra girar o
progresso do mundo,
porque vivo
e porque sonho.
por? Não na estante
que? Já disse, não na estante
Espere...
Um instante basta
:Por na alma
(ou o que quer que seja)
Uma estrofe
Uma imagem
E toda a sensação que não se explica
Isso.
Já é o bastante.
(ou: o que eu quero que seja
que seja!)
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Quase repetindo o óbvio
Há algo insondável na inocência
ou aquele "estado d'alma"
em que a razão não prediz
não deduz
no máximo reconhece o espelho,
estrategeia roubar um beijo
ou um mate no xadrez...
e a vida parece monótona-feliz
Aquele não pensar em não precisar pensar
em não pensar
Menos criancice (embora crianças sempre existam n'algum lugar)
do que a pura sensação acrítica de tudo
Há algo impossível...
(já que vejo e percebo e escrevo)
no sonho de Caeiro
É que só desejo não saber o que já é meu
enquanto os "estado d'alma"
apenas existem etéreos por aí,
fora de mim
e inocência é só um outro nome que inventei
enviada por Sol
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